sábado, 17 de dezembro de 2011

De braços cruzados...

Sem fôlego novamente. Arrepio entranhável de desejo proibido. Todas as lembranças mescladas com férteis imaginações, perdi o rumo da minha memória, todas em choque com o presente. Em que dimensão estou? Obsessa dissimulada, olvidada no desértico paraíso de um amor perpetuamente impossível. O enigma da perfeição paradoxal da dor, das palavras soltas sem sentido algum.
Eu sei que amo o som do vento, com mais impetuosidade ele pode levar minhas súplicas sussurradas a ti. E nessa dimensão... A realidade é tão superestimada, mas tão efêmera, estou perto da morte a cada segundo, meu mundo pode ruir a qualquer momento. De que me serve a realidade então? Em que dimensão preciso estar?
                O vento acaricia meu rosto com clemência, sua frieza é mais cálida do que este mundo perverso que me proíbe de te contar as verdades do meu ser. Talvez seja ele o único inclinado a me abraçar, já que dos teus braços estou distante. E o mesmo empurra as nuvens, carimbando sombras à minha angústia e me protegendo da luz egoísta do sol prepotente.
                Enquanto eles estão lá, comprando churros, conversando sobre o noticiário e outras mesquinharias, eu te procuro nessa imensidão chamada água. Te procuro no céu salpicado de nuvens pesadas e leves, escravas da vontade do vento, aquele que me abraça. Te procuro no prelúdio do repouso do sol, te procuro nas águas manchadas de luz sangrenta, prólogo da noite que me acolhe. E daqui não quero ir embora, sei que mora aqui perto, a esperança de te ver ainda me agita. Mas logo a dor da desilusão me esfria, e eu novamente me deixo molestar pelo vento. Enquanto o sol se vai...
                Eu fui feita contra este mundo, condenada a contradizer tudo o que me falam. Sou errada. Me disseram que meu amor não é saudável, mas eu não me preocupo com isso. Conto meus segredos para o pôr-do-sol, talvez em algum outro dia ele te diga. Porque de meus lábios estou proibida de falar. Porque estou condenada a me esconder... Por quê?! Ninguém me consultou antes de inventar essa regra! Assim como também ninguém me perguntou se eu queria te amar assim! Mas não é a minha falta de reciprocidade que me perturba, não me importo com correspondência. A dor me assalta ao saber que estás sofrendo, e que, por minha distância obrigatória, não posso te ajudar.
                Que o sol sepulte consigo essas lágrimas nesse crepúsculo melancólico, e que a noite te cerce de sonhos que te alegrem ao acordar.
                “Vamo” embora minha mãe ordena, cessando meu monólogo.
                Espero eles irem na frente e então me viro novamente para o Guaíba e suspiro.
            Contem tudo pra ela minha súplica melancólica corta meu coração. Era impossível.
                O vento clemente novamente me abraça. Desejo ardentemente que sejam teus braços. E nessas alturas à noite já me dá bom dia.

Daphini.M.Couto_E_

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Num sonho...

E eu só me lembro do frio. Dos riscos de poeira no chão, do mofo devorando as paredes de baixo pra cima, do branco melancólico e manchado pelo tempo, das celas sufocantes... E do frio. Celas totalmente vazias. Grades silenciosas que emergiam sofrimento dos que talvez já estivessem passado por ali.
Eu, por algum motivo desconhecido e deveras curioso, estava caminhando nesse lugar. Uma prisão, eu acho, o mais provável. Tinha grades em todos os sentidos e o silêncio me assombrava. A dimensão era espessa; eu conseguia ouvir minha própria respiração e meus pés se arrastarem no chão úmido, ecoando pelas as paredes. Não tinha muita certeza do porquê de estar ali, mas de todo modo nada me perturbava, era confortável caminhar por entre as celas, uma piada sádica interna, eu pelo menos estava “solta”.
Sem rumo, sem motivos ou qualquer coisa consistente que pudesse ter me trazido ali, eu continuava caminhando, admirando a beleza do mofo, com seu verde imperativo, o carimbo do tempo. Mas repentinamente meus olhos escorregaram das paredes escarnecidas para uma das celas, afinal, eu não estava sozinha. Minha companhia me apavorou: como ela poderia estar ali? Minha rainha presa? Quem ousou prendê-la? A onda de desespero limou toda minha tranquilidade e eu corri para a sela; precisava libertá-la.
As grades estavam abertas. Ela estava sentada sobre uma cama... eu acho. Tinha as mãos caídas por cima das pernas com uma tranquilidade majestosa, e ao mesmo tempo um brilho inocente nos olhos. Ou estava dopada o suficiente para não perceber que estava acorrentada, numa prisão, ou não estava desconfortável nessas condições, o que é estranho. Eu ficaria bastante desconfortável. Mas ela não estava. Parecia uma criança entediada, sonhando com episódio anterior do desenho animado favorito. Enquanto eu lutava contra o tempo, na necessidade angustiante de livrá-la daquelas correntes, ela sacudia a cabeça, olhando para os lados, e cantarolava como se o mundo não tivesse nenhum sentido além daquela música. Nem me ajudar a soltar as correntes estava.
Enfim consegui soltar suas mãos, e isso gerou uma reação totalmente inesperada. De repente ela soltou uma gargalhada digna de bruxa, toda a sua inocência substituída por uma maldade que eu desconhecia e não imaginava que pudesse existir. A risada cessou, e ao mesmo tempo ela me fitou com olhos afiados e poderosos. Veentemente segurou meu rosto entre suas mãos frias e duras como marfim. O olhar era tão maldoso e penetrante que me deixou sem fôlego, eu podia jurar que ela iria me beijar. Onde estava a criança?
Eu sou teu eterno ponto fraco. Tua perpétua heresia sussurrou enquanto lentamente se aproximava, me puxando.
Perdi o fôlego, meus pulmões me abandonaram. Maldito e divino, um prazer oblíquo salpicado de culpa. O proibido. Não haviam testemunhas. Era inevitável.

Uma luz cegante cortou-me por inteiro, cessou a alucinação. Quando recobrei os sentidos estava em uma praia, repentinamente. Agora estava sozinha, rumando para o mar como se lá fosse minha casa, minha morada. Como o precipício para a dama de coração partido, enclausurada pela amargura.
E eu acordei.
Daphini.M.Couto_E_

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Não sinto dor.

              Eu estava a vislumbrando pelo reflexo do espelho, e ela ainda não havia percebido minha presença ali. Ela lavou o rosto, secou com a toalha, fechou os olhos; parecia estar perturbada por alguma coisa; depois se olhou no espelho e finalmente me viu.
               
             Foi difícil chegar até aqui; quando acordei eu não sabia onde estava, via apenas grama a minha volta. Foi o arranhar do trem nos trilhos que me despertou. Eu estava bem no lado, mais alguns metros e teria perdido minha cabeça. A chuva tinha parado... Sim! Eu me lembro da chuva! Me lembro também de ter tocado o rosto dela com meus dedos trêmulos e ensanguentados antes de apagar. Mas não tinha grama antes, só chuva. Quem me trouxera para cá, então?
               Me sentei, toquei meu pescoço e ardeu, me trazendo a memória tudo o que tinha acontecido.
       
              ▬ Pode parecer estranho ▬ ela sussurrou.
              ▬ Eu não me importo ▬ eu nunca me importei com consequências, com dor, com certo ou errado. Nunca me importei com nada quando vindo dela... minha única exceção.
           
            Sutileza sempre foi uma característica minha.
Esconder...
Me contava apenas com olhares sorrateiros. Minhas cartas eram suaves, nada comparadas ao que eu realmente sentia, algo destrutivo que eu jamais a revelaria.
             Mas enfim, o grande mistério é como ela descobriu.
            Eu sempre estava olhando pra ela, sempre. Mas assim que ela percebia, desviava para não levantar suspeitas. Eu a amava de uma forma tão poderosa que era perigoso deixar meus olhos em xeque, poderiam ser muito reveladores. Mas naquele dia eu não consegui desviar, talvez tenha sido isso que a fez perceber.
            Fiquei a encarando por dez segundos; eu não sei como os meus olhos estavam, mas os dela eram clementes, piedosos, do tipo “pobre criança”. E assim se mantiveram até ela vir na minha direção.
                ▬ Precisamos conversar ▬ sentenciou-me num tom sério.
               Em estado de embriaguez, eu apenas meneei a cabeça e a segui até uma sala.
           Foi um questionário rígido que me levou às lágrimas. Eu acabei contando tudo. Depois perguntei como tinha descoberto, mas ela não me disse exatamente, disse apenas que foram peças que juntou, que comparou cartas, monólogos, poemas, passou a me observar e até que desconfiou. É claro que eu não acreditei, deveria ter sido traição de alguém! Algum indivíduo deve ter aberto a boca.
           Se formou um silêncio gelado sobre nós; eu sentia os olhos dela me cuidando, mas jamais conseguiria levantar minha cabeça para confirmar isso. Lágrimas brotavam do meu rosto com muita facilidade, e isso me foi vantajoso.
            Movida de compaixão ela se sentou ao meu lado e tocou meu queixo.
           Eu chorei mais ainda, fiquei me xingando, me detestando e ela tentando me confortar até cessar minha criatividade e eu me entregar ao seu afago.

           Enfim, reciprocidade doentia.
           Era um almoço na casa dela, uma justificativa para se “reconciliar” comigo, uma forma de gratidão, de correspondência à misericórdia. Um ato altruísta da sua parte, mas eu garanto que nem ela imaginava o que iria acontecer.
           Segundo ela sou um “anjo desbotado”, uma "alminha dolorida que precisa de amparo”. Segundo seus dedos, meus cabelos são macios; o clima estava ameno, translúcido, belo... Até a pergunta.
            ▬ Por quê? O que tenho que te atrai? ▬ seu tom foi intenso, como vinho para o abnegado, como açúcar para o diabético, como... Como nos meus sonhos.
            Ela me arrancou as verdades sem precisar falar mais nada. Era o seu aroma, o tom da sua voz, seus dedos nos meus cabelos, era a sua presença aquela força me intimidava à sinceridade destrutiva.
            Escândalo...
            Eu devo ter comovido seu coração com tudo que falei. Falei de seu cheiro, da voz, da personalidade, dos olhos, falei estrofes não rimadas de tudo que tinha em mente.
            O escândalo veio no próximo momento de silêncio, quando eu não resisti e, sobre aquele sofá pardo, apenas as estantes como testemunha, toquei seu rosto como o arqueólogo que encontra um epitáfio faraônico.
            ▬ Eu te amo... ▬ sussurrei como se estivesse assumindo um crime. Era tudo tão... errado...
            ▬ Eu não vou te machucar... ▬ ela sussurrou mais baixo ainda pondo suas mãos na minha nuca.
Eu estava de olhos fechados quando senti seu hálito mais próximo e depois o toque quente dos lábios nos meus. Estremeci... era surreal demais, bom demais, proibido demais para ser verdade. Mas sim, estava acontecendo, ali, naquele instante! Do leve toque de lábios surgiu então a verdadeira mistura de emoções, e enfim, um longo e promissor beijo de verdade, despido de toda qualquer inocência.
Uma reciprocidade doentia.

            Desde então passei a obedecê-la e venerá-la ainda mais. Compartilhávamos de um segredo infame, ninguém sequer desconfiava. Ambos éramos loucos; eu, por adorá-la tanto a ponto de entregar a vida em troca apenas de seu sorriso. E ela, a ponto de me pedir tais coisas...
            ▬ Pode parecer estranho ▬ ela sussurrou no dia em que tudo aconteceu.
            ▬ Não me importo ▬ não importava mesmo o que ela iria pedir, eu faria.
            ▬ Dor... pode causar dor ▬ gaguejou.
            ▬ Não há dor vindo de seus braços.
            Isso a encorajou, foi o sinal verde para sua psicopatia.
            Então era esse seu desejo... seu grande sonho. Sua obsessão comprimida durante anos, e que agora era confiada a mim. Uma honra!... Estranha, de fato, mas uma honra! Ser a cobaia de seu sonho psicótico, a partir de agora meu também.
Ela tinha uma faca nas mãos, uma faca fina e quase meiga, um punhal prateado. Ela traçou a lâmina sobre meu pescoço até meu queixo, foi incrível a sensação frenética que aquilo me causou. Não doeu, como eu disse, nunca sentiria dor vindo dela. Meus pulsos, meu pescoço, queixo, entre mordidas e a lâmina. Ouvia a chuva; aquilo não era apenas suor, era meu sangue, tanto em mim quanto nos seus lábios. E seus olhos... flamejantes, deliciosamente sombrios e realizados.
           
           Não encarei como traição, ou assassinato. 
        No fim de tudo, olhando para seus olhinhos assustados e culpados, eu toquei seu rosto com meus dedos trêmulos e ensanguentados, e o apagão pousou em mim com uma nuvem negra e pesada puxando-me para um abismo pela nuca.
            Só me acordei em meio às gramas, um tênue som de águas correntes e o trem barulhento.

        Era difícil caminhar, como a dor não vinha mais dela, agora eu a sentia, e bastante. Eu cambaleava até chegar a um pedaço da cidade. Reconheci o lugar e sabia onde encontrá-la.
          Foram duas semanas vagando como um zumbi. A roupa ensanguentada, rasgada, minha sutileza, eu a espionava. Não pude perder a oportunidade quando a vi entrar no banheiro da biblioteca. Me escondi em um dos boxes; ela estava belíssima, delicada e preocupada. Notei que precisou lavar o rosto porque havia lágrimas nos seus olhos. Sai do Box e segui na sua direção.
            Ela lavou o rosto, secou-se com a toalha e enfim me viu através do reflexo. Deixou sua bolsa cair e colocou as mãos na boca, comprimindo um grito desesperado. Enfim correu para a porta, mas estava trancada... eu cuidei de todos os detalhes.
            ▬ Isso é impossível! ▬ ela arquejou encostada na porta, em pânico.
            Eu não estava com raiva, não ia me vingar e em milênios, nunca conseguiria machucá-la.
            Eu sorria; senti uma vibração doentia, uma alegria sombria e me aproximei dela, cercando-a contra a porta. Meus dedos, ainda sujos de sangue, tocaram seu queixo. Ela tremia, permanecendo em estado de pânico, o que me alegrava mais.Agora era a minha psicopatia, o meu sonho...
            ▬ Não vou te machucar ▬ sussurrei soando ironia.
            ▬ Pode se vingar ▬ ela falou entre lágrimas suprimidas. ▬ Sei que errei.
            Eu balancei a cabeça.
            Tcs... tcs... tcs
            ▬ Até parece que não me conhece. Não vou me vingar... ▬ afaguei sua nuca. ▬ Mas nunca mais vou deixá-la partir de novo ▬ agora soei cruel.
            E ela gritou até eu tampar seus lábios com os meus.
           

            Agora é noite; meus pés estão dentro do lago; sua cabeça repousa sobre meu colo. Ela dorme um sono interrupto e leve. Nunca mais vai ir embora, agora sim posso respirar e terminar tudo. Elevo meus dedos até os lábios, provando o doce sabor de seu sangue, igualmente como ela fizera naquele dia. Depois me levanto, encosto sua cabeça lentamente sobre o travesseiro enjambrado com folhas e me deito tranquilamente e confortavelmente sobre os trilhos.
            ▬ Eu te amo, dos teus braços nunca senti dor ▬ sussurro e lhe atiro a rosa vermelha que comprei especialmente para essa ocasião.
            Observo a fragilidade da flor ao tocar sua pele pálida e reflito sobre o quanto a vida é frágil e incerta enquanto ouço o trem se aproximando...
           






















Daphini.M.Couto_E_