Sem fôlego novamente. Arrepio entranhável de desejo proibido. Todas as lembranças mescladas com férteis imaginações, perdi o rumo da minha memória, todas em choque com o presente. Em que dimensão estou? Obsessa dissimulada, olvidada no desértico paraíso de um amor perpetuamente impossível. O enigma da perfeição paradoxal da dor, das palavras soltas sem sentido algum.
Eu sei que amo o som do vento, com mais impetuosidade ele pode levar minhas súplicas sussurradas a ti. E nessa dimensão... A realidade é tão superestimada, mas tão efêmera, estou perto da morte a cada segundo, meu mundo pode ruir a qualquer momento. De que me serve a realidade então? Em que dimensão preciso estar?
O vento acaricia meu rosto com clemência, sua frieza é mais cálida do que este mundo perverso que me proíbe de te contar as verdades do meu ser. Talvez seja ele o único inclinado a me abraçar, já que dos teus braços estou distante. E o mesmo empurra as nuvens, carimbando sombras à minha angústia e me protegendo da luz egoísta do sol prepotente.
Enquanto eles estão lá, comprando churros, conversando sobre o noticiário e outras mesquinharias, eu te procuro nessa imensidão chamada água. Te procuro no céu salpicado de nuvens pesadas e leves, escravas da vontade do vento, aquele que me abraça. Te procuro no prelúdio do repouso do sol, te procuro nas águas manchadas de luz sangrenta, prólogo da noite que me acolhe. E daqui não quero ir embora, sei que mora aqui perto, a esperança de te ver ainda me agita. Mas logo a dor da desilusão me esfria, e eu novamente me deixo molestar pelo vento. Enquanto o sol se vai...
Eu fui feita contra este mundo, condenada a contradizer tudo o que me falam. Sou errada. Me disseram que meu amor não é saudável, mas eu não me preocupo com isso. Conto meus segredos para o pôr-do-sol, talvez em algum outro dia ele te diga. Porque de meus lábios estou proibida de falar. Porque estou condenada a me esconder... Por quê?! Ninguém me consultou antes de inventar essa regra! Assim como também ninguém me perguntou se eu queria te amar assim! Mas não é a minha falta de reciprocidade que me perturba, não me importo com correspondência. A dor me assalta ao saber que estás sofrendo, e que, por minha distância obrigatória, não posso te ajudar.
Que o sol sepulte consigo essas lágrimas nesse crepúsculo melancólico, e que a noite te cerce de sonhos que te alegrem ao acordar.
▬ “Vamo” embora ▬ minha mãe ordena, cessando meu monólogo.
Espero eles irem na frente e então me viro novamente para o Guaíba e suspiro.
▬ Contem tudo pra ela ▬ minha súplica melancólica corta meu coração. Era impossível.
O vento clemente novamente me abraça. Desejo ardentemente que sejam teus braços. E nessas alturas à noite já me dá bom dia.
Daphini.M.Couto_E_

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