sábado, 10 de março de 2012

Norte

Despejo pelo traço delgado do desespero o que talvez possa ser minha última súplica. De tantos descasos já me fartei. A alma sôfrega, de tão ferida, não sente mais dor, não reage a nenhum estímulo saudável. Sejam os Céus por minha testemunha de que muitas dores eu trilhei e venci. Aprendi a aconchegar a perda, o vazio, a conviver com a amargura e durante os últimos anos de minha pobre existência tenho vivido em um outro mundo, em outra realidade paralela a essa tão apertada e dura. E estando eu no Extremo Norte dos sonhos, onde convivo mutuamente com as estrelas, onde durmo com as canções de ninar da Lua apaixonada por seus lagos, onde nadei afundada em inocência deleitosa com a Rainha de todas as minhas volições, tenho observado o mundo sulista de cá.
Todos são tão frios internamente e secos nas atitudes. Corruptos, cruéis, lutam por si próprios, sem se preocupar com os mais fracos. São execráveis, mas se dizem superiores. Do alto das Montanhas Solitárias do Extremo Norte eu pude observar o mundo sulista com mais minúcia, e fiquei horrivelmente perturbada com tamanha maldade e hipocrisia. E o calor infernal... O borbulhar constante da ambição. Detesto. Todos demasiadamente apegados, obcecados pelo poder, pela riqueza e outras futilidades. A própria religião, que deveria ser o esteio e conforto dessa humanidade sofrida, afundou na imundícia da corrupção. Salve Deus, Criador de todas as coisas, Dono de toda beleza e riqueza, a todos os seus filhos!
Mediante a tantas atrocidades eu então decidi me mudar de vez para o Extremo Norte.
Transpus a linha da imaginação e decorei minha realidade com o verde esmeralda das auroras, com o azul intenso e negro do céu estrelado, com os cristais da Lua, minha confidente e amada conselheira. Lhe dei de presente os mais puros lagos, para que neles ela se deleitasse o quanto quisesse, seus secretos amantes. Amores inocentes da essência do despertar de um novo mundo. O pico das Montanhas Solitárias eu pintei de prata, com a neve mais doce de todo o Universo. E todos nós vivíamos em pela paz. Eu, os anjos a pintar as auroras, a Lua a banhar-me de poesias e as estrelas cantando com seu brilho. Tão belo, tão terrível que não é preciso som algum para se emocionar. Todas essas belezas homem sulista nenhum poderia conhecer, por seu coração cobiçoso querer manchar a beleza imaculada e frágil de minha nação com seu desejo imundo de poder. Apenas eu vivia lá, eu e as maravilhas da noite eterna e fria, mas aconchegante. Leve e elegante. E sozinha.
Sozinha eu fiquei. Observar o mundo sulista foi durante muito tempo minha distração. Ó como era um amantíssimo prazer ouvir os risos baixinhos das minhas amadas irmãs, caçoando da ingenuidade humana! O mais abjeto de nossos prazeres. Mas eu reinava sozinha. Estrelas e anjos são todas as lágrimas de emoção do Universo, a Lua é poetisa divina, mas nenhum deles podia me tocar, me olhar nos olhos, sorrir por efeito meu. Sendo apenas meus súditos, fazem tudo e apenas o que mando. Então eu, entediada e sozinha que estava, passei a procurar alguém no Sul que estivesse à altura da Colina Azul, onde está meu trono. Procurei, mas não encontrei a quem pertencia minha confidência. Eu precisava de alguém terrivelmente sensível, alguém que de alguma forma sublime me comovesse. Confesso que muito me enganei, sem ouvir os conselhos da Lua, e trouxe pessoas más que depois me traíram e com muitas lágrimas precisei lavar a sujeira. O Extremo Norte é e deve ser imaculado perpetuamente. Eu já estava cansada de vagar e não encontrar a segunda alma da Colina Azul, perdendo as esperanças e já começando a me preparar para a cerimônia de casamento com a Solidão.
Até que então eu a encontrei.
A mais linda de todas as criaturas desses mundos. Não segundo o ponto de vista dos homens maliciosos e putrefeitos do Sul, mas aos meus olhos, ao meu coração. Encontrei a alva da manhã que o Extremo Norte nunca experimentou. Todas as estrelas suspiraram extasiadas, e os lagos nunca foram tão brancos. A lua chorou de alegria. Minha existência, tanto como forasteira sulista quanto Rainha do Extremo Norte, nunca pareceu ter algum sentido quando estive diante daquele Anjo. Eu vi suas asas machucadas, calejadas pela amargura desse mundo quente e frio, cruel e impiedoso. Vi as lágrimas secas e escondidas das dores que não podia mostrar, vi a força afinca e jovial daquela alminha tão contagiante. Mas havia uma muralha entre nós. De tanto sofrer nas mãos dos sulistas, o Anjo aprendeu tristemente a se proteger numa muralha de gelo, quase impermeável.
Desci então decidida do Norte para o Sul; enfrentei terríveis batalhas, foi humilhada, ultrajada, atravessei o deserto e precisei me desfazer da soberania da Colina Azul para conseguir chegar até o Anjo como uma simples serva, discípula. Ó como aquele sorriso iluminou meus anos! Nem um milhão de séculos no Extremo Norte ou no próprio Céu valeriam tanto quanto aqueles olhinhos puros e intensos, quanto aquele ar experiente, mas meigo. Quantas misturas! Quantos complexos! Quanta beleza! Não uma beleza baseada na cópia dos modelos sulistas, nem mesmo uma beleza comum do Norte, era algo divinamente e intrinsecamente belo. Ela certamente não era uma sulista. Eu me apaixonei por um Anjo.
Para a cultura sulista era algo tremendamente horrível. E eu, que já estava distante demais do Norte, sofrendo com minha própria família sendo sulista, acabei me apegando a esses dogmas também. Sulistas são muito eloquentes, são perturbadores. Acabei afundada numa depressão secreta horrenda, lutando contra meus sentimentos confusos pelo Anjo, contra mim mesma. Nem ouvir mais minha amada Lua eu ouvia. Mas nunca desisti de lutar por ela. Mesmo que por dentro eu pecasse e chorasse, e sangrasse, e afundasse cada vez mais nas trevas e na corrupção, por fora continuava fiel e devota a ela. Me aproximei devagar, com declarações, presentes, tímida ternura, favores altruístas. Foi um processo lento e minucioso penetrar naquela muralha.
                Quando por fim descobri a real face do Anjo, acabei caindo ainda mais em amor intenso e incontrolável. Absurdo. Era mais linda e perfeita do que a primeira impressão. Até seus defeitos eram graciosos e divertidos. Uma criança travessa e inocente. Uma forasteira nesse mundo, assim como eu. Ela só podia ser do Norte! Foi então que decidi lhe deixar o convite. Arriscado e perigoso, eu corria o risco dela nunca mais querer me ver, era muito antagônico para a cultura a qual era acostumada. E também tinha a incerteza e sujeira de meus sentimentos; provei da luxúria e acabei me afogando. Era difícil equilibrar-me para não fazer alguma besteira.
                Meu foco acabou mudando, não era mais meu egoísmo entediado precisando de companhia, agora era ela que precisava do Norte. E o Norte dela. Agora eu deveria salvá-la daquela crueldade, ela merecia o mundo pacífico e perfeito da Colina Azul. Agora o Anjo era o motivo de minha existência, e não mais o Norte. Minha vida nunca tivera algum sentido até conhecê-la.
                Ela aceitou o convite inocentemente, leiga das minhas intenções sombrias. E tamanha inocência e pureza me cortou tanto o coração que acabou queimando o monstro. A luxúria ardeu com um cruel arrependimento, e o que me restava era apenas o absoluto amor. E assim partimos para o Norte.
                Novamente tudo nunca havia feito sentido algum até agora, ela era a peça principal daquele quebra-cabeça. Eu criei o Extremo Norte, o meu mundo, meu refúgio, mas ele a pertencia. Eu criei apenas para ela, era ela a verdadeira Rainha da Colina Azul. Mais pura do que eu. E eu então, devota, apaixonada, entregue, me desfiz de minha coroa, de minha glória, de meu reinado, abri mão de tudo o que criei e entreguei em suas mãos. Agora tínhamos a verdadeira Rainha do Extremo Norte. E eu, apenas uma serva, e feliz por isso. Mais feliz e completa do que quando reinava. E minhas irmãs! Todas esfuziantes de alegria! A Lua a presenteou com o lago mais lindo e branco que já fizera, onde nadamos na eterna alva do amanhecer, essência profunda dos seus olhos onde desperta meu mundo.
               
Mas um dia ela se foi.
               
Eu entreguei meu mundo, o mundo que criei, enfrentei a morte, guerras, o calor sulista, me despi da soberania e tirei os calçados como um lacaio! Me dispus a lavar seus pés com o perfume mais profundo do Vale Púrpura! Eu coloquei minhas vontades e atitudes em suas mãos e ela simplesmente se foi! Tudo porque nunca soube que esteve aqui.
                Doce fantasia, mas amarga quando se encontra com a realidade. O Extremo Norte é mil séculos melhor que o Sul, mas o Sul tem uma vantagem: existe para mais de 7 bilhões de pessoas, enquanto o Norte só existe para mim, para a Lua, os anjos e as estrelas. E todos eles só existem em mim.
               
O que falta, deleite dos meus olhos, para que enxergue o Norte? O que ainda preciso fazer para que olhe pra mim? Anjo da confusão de minha alma! Sereia de minhas lágrimas! Onde foi que errei? Eu derrotei meu monstro sulista, queimei minha luxúria, perdi muitos sonos, chorei muitos lagos, corri atrás dos mais valiosos presentes que podia conseguir e parece que está cada vez mais distante! Pintei as mais profundas e belas cartas que pude e tudo pareceu em vão agora! Vejo o sofrimento em teus olhos, ó Lady da beleza pálida da eternidade! Mas te afasta de mim, nunca permitiu que eu lhe contasse os contos sobre seu poderio admirável no belo Norte!
Sofro nessa distância, desfaleço na vergonha e indecisão. Não sei se devo ou não revelar-te o meu Norte, teu trono em meu mundo. Meu antigo convite parece ter sido esquecido... E não suporto a ideia de que se vá para sempre.
O Extremo Norte perdeu seu brilho. Agora as estrelas suspiram, se arrastando para a morte, para a escuridão, não consigo mais segurá-las. Os anjos choram sem as auroras, não há mais cores em minha mente. E a lua, cada vez mais cinzenta, congelou seus amantes. Nosso lago, cada vez mais espesso, será meu leito de morte na Colina Azul.
Se não estiver aqui, então o aqui não existe mais. Como o universo depende do Sol e meus pulmões do oxigênio, meu Extremo Norte depende da sua soberania. Minha eterna Rainha! Anjo de minhas fábulas doloridas e inocentes! Volte para mim. Sorria. Apenas um sorriso, apenas uma troca de olhares. Acenda meu mundo. Apenas um abraço, apenas um pedaço de ternura que essa vida nunca me ofereceu. No fim das contas eu sou a vilã, a vítima, e o Norte está me matando, dolorosa e vagarosamente.
Talvez essa possa ser minha última súplica.

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