sábado, 10 de março de 2012

Norte

Despejo pelo traço delgado do desespero o que talvez possa ser minha última súplica. De tantos descasos já me fartei. A alma sôfrega, de tão ferida, não sente mais dor, não reage a nenhum estímulo saudável. Sejam os Céus por minha testemunha de que muitas dores eu trilhei e venci. Aprendi a aconchegar a perda, o vazio, a conviver com a amargura e durante os últimos anos de minha pobre existência tenho vivido em um outro mundo, em outra realidade paralela a essa tão apertada e dura. E estando eu no Extremo Norte dos sonhos, onde convivo mutuamente com as estrelas, onde durmo com as canções de ninar da Lua apaixonada por seus lagos, onde nadei afundada em inocência deleitosa com a Rainha de todas as minhas volições, tenho observado o mundo sulista de cá.
Todos são tão frios internamente e secos nas atitudes. Corruptos, cruéis, lutam por si próprios, sem se preocupar com os mais fracos. São execráveis, mas se dizem superiores. Do alto das Montanhas Solitárias do Extremo Norte eu pude observar o mundo sulista com mais minúcia, e fiquei horrivelmente perturbada com tamanha maldade e hipocrisia. E o calor infernal... O borbulhar constante da ambição. Detesto. Todos demasiadamente apegados, obcecados pelo poder, pela riqueza e outras futilidades. A própria religião, que deveria ser o esteio e conforto dessa humanidade sofrida, afundou na imundícia da corrupção. Salve Deus, Criador de todas as coisas, Dono de toda beleza e riqueza, a todos os seus filhos!
Mediante a tantas atrocidades eu então decidi me mudar de vez para o Extremo Norte.
Transpus a linha da imaginação e decorei minha realidade com o verde esmeralda das auroras, com o azul intenso e negro do céu estrelado, com os cristais da Lua, minha confidente e amada conselheira. Lhe dei de presente os mais puros lagos, para que neles ela se deleitasse o quanto quisesse, seus secretos amantes. Amores inocentes da essência do despertar de um novo mundo. O pico das Montanhas Solitárias eu pintei de prata, com a neve mais doce de todo o Universo. E todos nós vivíamos em pela paz. Eu, os anjos a pintar as auroras, a Lua a banhar-me de poesias e as estrelas cantando com seu brilho. Tão belo, tão terrível que não é preciso som algum para se emocionar. Todas essas belezas homem sulista nenhum poderia conhecer, por seu coração cobiçoso querer manchar a beleza imaculada e frágil de minha nação com seu desejo imundo de poder. Apenas eu vivia lá, eu e as maravilhas da noite eterna e fria, mas aconchegante. Leve e elegante. E sozinha.
Sozinha eu fiquei. Observar o mundo sulista foi durante muito tempo minha distração. Ó como era um amantíssimo prazer ouvir os risos baixinhos das minhas amadas irmãs, caçoando da ingenuidade humana! O mais abjeto de nossos prazeres. Mas eu reinava sozinha. Estrelas e anjos são todas as lágrimas de emoção do Universo, a Lua é poetisa divina, mas nenhum deles podia me tocar, me olhar nos olhos, sorrir por efeito meu. Sendo apenas meus súditos, fazem tudo e apenas o que mando. Então eu, entediada e sozinha que estava, passei a procurar alguém no Sul que estivesse à altura da Colina Azul, onde está meu trono. Procurei, mas não encontrei a quem pertencia minha confidência. Eu precisava de alguém terrivelmente sensível, alguém que de alguma forma sublime me comovesse. Confesso que muito me enganei, sem ouvir os conselhos da Lua, e trouxe pessoas más que depois me traíram e com muitas lágrimas precisei lavar a sujeira. O Extremo Norte é e deve ser imaculado perpetuamente. Eu já estava cansada de vagar e não encontrar a segunda alma da Colina Azul, perdendo as esperanças e já começando a me preparar para a cerimônia de casamento com a Solidão.
Até que então eu a encontrei.
A mais linda de todas as criaturas desses mundos. Não segundo o ponto de vista dos homens maliciosos e putrefeitos do Sul, mas aos meus olhos, ao meu coração. Encontrei a alva da manhã que o Extremo Norte nunca experimentou. Todas as estrelas suspiraram extasiadas, e os lagos nunca foram tão brancos. A lua chorou de alegria. Minha existência, tanto como forasteira sulista quanto Rainha do Extremo Norte, nunca pareceu ter algum sentido quando estive diante daquele Anjo. Eu vi suas asas machucadas, calejadas pela amargura desse mundo quente e frio, cruel e impiedoso. Vi as lágrimas secas e escondidas das dores que não podia mostrar, vi a força afinca e jovial daquela alminha tão contagiante. Mas havia uma muralha entre nós. De tanto sofrer nas mãos dos sulistas, o Anjo aprendeu tristemente a se proteger numa muralha de gelo, quase impermeável.
Desci então decidida do Norte para o Sul; enfrentei terríveis batalhas, foi humilhada, ultrajada, atravessei o deserto e precisei me desfazer da soberania da Colina Azul para conseguir chegar até o Anjo como uma simples serva, discípula. Ó como aquele sorriso iluminou meus anos! Nem um milhão de séculos no Extremo Norte ou no próprio Céu valeriam tanto quanto aqueles olhinhos puros e intensos, quanto aquele ar experiente, mas meigo. Quantas misturas! Quantos complexos! Quanta beleza! Não uma beleza baseada na cópia dos modelos sulistas, nem mesmo uma beleza comum do Norte, era algo divinamente e intrinsecamente belo. Ela certamente não era uma sulista. Eu me apaixonei por um Anjo.
Para a cultura sulista era algo tremendamente horrível. E eu, que já estava distante demais do Norte, sofrendo com minha própria família sendo sulista, acabei me apegando a esses dogmas também. Sulistas são muito eloquentes, são perturbadores. Acabei afundada numa depressão secreta horrenda, lutando contra meus sentimentos confusos pelo Anjo, contra mim mesma. Nem ouvir mais minha amada Lua eu ouvia. Mas nunca desisti de lutar por ela. Mesmo que por dentro eu pecasse e chorasse, e sangrasse, e afundasse cada vez mais nas trevas e na corrupção, por fora continuava fiel e devota a ela. Me aproximei devagar, com declarações, presentes, tímida ternura, favores altruístas. Foi um processo lento e minucioso penetrar naquela muralha.
                Quando por fim descobri a real face do Anjo, acabei caindo ainda mais em amor intenso e incontrolável. Absurdo. Era mais linda e perfeita do que a primeira impressão. Até seus defeitos eram graciosos e divertidos. Uma criança travessa e inocente. Uma forasteira nesse mundo, assim como eu. Ela só podia ser do Norte! Foi então que decidi lhe deixar o convite. Arriscado e perigoso, eu corria o risco dela nunca mais querer me ver, era muito antagônico para a cultura a qual era acostumada. E também tinha a incerteza e sujeira de meus sentimentos; provei da luxúria e acabei me afogando. Era difícil equilibrar-me para não fazer alguma besteira.
                Meu foco acabou mudando, não era mais meu egoísmo entediado precisando de companhia, agora era ela que precisava do Norte. E o Norte dela. Agora eu deveria salvá-la daquela crueldade, ela merecia o mundo pacífico e perfeito da Colina Azul. Agora o Anjo era o motivo de minha existência, e não mais o Norte. Minha vida nunca tivera algum sentido até conhecê-la.
                Ela aceitou o convite inocentemente, leiga das minhas intenções sombrias. E tamanha inocência e pureza me cortou tanto o coração que acabou queimando o monstro. A luxúria ardeu com um cruel arrependimento, e o que me restava era apenas o absoluto amor. E assim partimos para o Norte.
                Novamente tudo nunca havia feito sentido algum até agora, ela era a peça principal daquele quebra-cabeça. Eu criei o Extremo Norte, o meu mundo, meu refúgio, mas ele a pertencia. Eu criei apenas para ela, era ela a verdadeira Rainha da Colina Azul. Mais pura do que eu. E eu então, devota, apaixonada, entregue, me desfiz de minha coroa, de minha glória, de meu reinado, abri mão de tudo o que criei e entreguei em suas mãos. Agora tínhamos a verdadeira Rainha do Extremo Norte. E eu, apenas uma serva, e feliz por isso. Mais feliz e completa do que quando reinava. E minhas irmãs! Todas esfuziantes de alegria! A Lua a presenteou com o lago mais lindo e branco que já fizera, onde nadamos na eterna alva do amanhecer, essência profunda dos seus olhos onde desperta meu mundo.
               
Mas um dia ela se foi.
               
Eu entreguei meu mundo, o mundo que criei, enfrentei a morte, guerras, o calor sulista, me despi da soberania e tirei os calçados como um lacaio! Me dispus a lavar seus pés com o perfume mais profundo do Vale Púrpura! Eu coloquei minhas vontades e atitudes em suas mãos e ela simplesmente se foi! Tudo porque nunca soube que esteve aqui.
                Doce fantasia, mas amarga quando se encontra com a realidade. O Extremo Norte é mil séculos melhor que o Sul, mas o Sul tem uma vantagem: existe para mais de 7 bilhões de pessoas, enquanto o Norte só existe para mim, para a Lua, os anjos e as estrelas. E todos eles só existem em mim.
               
O que falta, deleite dos meus olhos, para que enxergue o Norte? O que ainda preciso fazer para que olhe pra mim? Anjo da confusão de minha alma! Sereia de minhas lágrimas! Onde foi que errei? Eu derrotei meu monstro sulista, queimei minha luxúria, perdi muitos sonos, chorei muitos lagos, corri atrás dos mais valiosos presentes que podia conseguir e parece que está cada vez mais distante! Pintei as mais profundas e belas cartas que pude e tudo pareceu em vão agora! Vejo o sofrimento em teus olhos, ó Lady da beleza pálida da eternidade! Mas te afasta de mim, nunca permitiu que eu lhe contasse os contos sobre seu poderio admirável no belo Norte!
Sofro nessa distância, desfaleço na vergonha e indecisão. Não sei se devo ou não revelar-te o meu Norte, teu trono em meu mundo. Meu antigo convite parece ter sido esquecido... E não suporto a ideia de que se vá para sempre.
O Extremo Norte perdeu seu brilho. Agora as estrelas suspiram, se arrastando para a morte, para a escuridão, não consigo mais segurá-las. Os anjos choram sem as auroras, não há mais cores em minha mente. E a lua, cada vez mais cinzenta, congelou seus amantes. Nosso lago, cada vez mais espesso, será meu leito de morte na Colina Azul.
Se não estiver aqui, então o aqui não existe mais. Como o universo depende do Sol e meus pulmões do oxigênio, meu Extremo Norte depende da sua soberania. Minha eterna Rainha! Anjo de minhas fábulas doloridas e inocentes! Volte para mim. Sorria. Apenas um sorriso, apenas uma troca de olhares. Acenda meu mundo. Apenas um abraço, apenas um pedaço de ternura que essa vida nunca me ofereceu. No fim das contas eu sou a vilã, a vítima, e o Norte está me matando, dolorosa e vagarosamente.
Talvez essa possa ser minha última súplica.

sábado, 17 de dezembro de 2011

De braços cruzados...

Sem fôlego novamente. Arrepio entranhável de desejo proibido. Todas as lembranças mescladas com férteis imaginações, perdi o rumo da minha memória, todas em choque com o presente. Em que dimensão estou? Obsessa dissimulada, olvidada no desértico paraíso de um amor perpetuamente impossível. O enigma da perfeição paradoxal da dor, das palavras soltas sem sentido algum.
Eu sei que amo o som do vento, com mais impetuosidade ele pode levar minhas súplicas sussurradas a ti. E nessa dimensão... A realidade é tão superestimada, mas tão efêmera, estou perto da morte a cada segundo, meu mundo pode ruir a qualquer momento. De que me serve a realidade então? Em que dimensão preciso estar?
                O vento acaricia meu rosto com clemência, sua frieza é mais cálida do que este mundo perverso que me proíbe de te contar as verdades do meu ser. Talvez seja ele o único inclinado a me abraçar, já que dos teus braços estou distante. E o mesmo empurra as nuvens, carimbando sombras à minha angústia e me protegendo da luz egoísta do sol prepotente.
                Enquanto eles estão lá, comprando churros, conversando sobre o noticiário e outras mesquinharias, eu te procuro nessa imensidão chamada água. Te procuro no céu salpicado de nuvens pesadas e leves, escravas da vontade do vento, aquele que me abraça. Te procuro no prelúdio do repouso do sol, te procuro nas águas manchadas de luz sangrenta, prólogo da noite que me acolhe. E daqui não quero ir embora, sei que mora aqui perto, a esperança de te ver ainda me agita. Mas logo a dor da desilusão me esfria, e eu novamente me deixo molestar pelo vento. Enquanto o sol se vai...
                Eu fui feita contra este mundo, condenada a contradizer tudo o que me falam. Sou errada. Me disseram que meu amor não é saudável, mas eu não me preocupo com isso. Conto meus segredos para o pôr-do-sol, talvez em algum outro dia ele te diga. Porque de meus lábios estou proibida de falar. Porque estou condenada a me esconder... Por quê?! Ninguém me consultou antes de inventar essa regra! Assim como também ninguém me perguntou se eu queria te amar assim! Mas não é a minha falta de reciprocidade que me perturba, não me importo com correspondência. A dor me assalta ao saber que estás sofrendo, e que, por minha distância obrigatória, não posso te ajudar.
                Que o sol sepulte consigo essas lágrimas nesse crepúsculo melancólico, e que a noite te cerce de sonhos que te alegrem ao acordar.
                “Vamo” embora minha mãe ordena, cessando meu monólogo.
                Espero eles irem na frente e então me viro novamente para o Guaíba e suspiro.
            Contem tudo pra ela minha súplica melancólica corta meu coração. Era impossível.
                O vento clemente novamente me abraça. Desejo ardentemente que sejam teus braços. E nessas alturas à noite já me dá bom dia.

Daphini.M.Couto_E_

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Num sonho...

E eu só me lembro do frio. Dos riscos de poeira no chão, do mofo devorando as paredes de baixo pra cima, do branco melancólico e manchado pelo tempo, das celas sufocantes... E do frio. Celas totalmente vazias. Grades silenciosas que emergiam sofrimento dos que talvez já estivessem passado por ali.
Eu, por algum motivo desconhecido e deveras curioso, estava caminhando nesse lugar. Uma prisão, eu acho, o mais provável. Tinha grades em todos os sentidos e o silêncio me assombrava. A dimensão era espessa; eu conseguia ouvir minha própria respiração e meus pés se arrastarem no chão úmido, ecoando pelas as paredes. Não tinha muita certeza do porquê de estar ali, mas de todo modo nada me perturbava, era confortável caminhar por entre as celas, uma piada sádica interna, eu pelo menos estava “solta”.
Sem rumo, sem motivos ou qualquer coisa consistente que pudesse ter me trazido ali, eu continuava caminhando, admirando a beleza do mofo, com seu verde imperativo, o carimbo do tempo. Mas repentinamente meus olhos escorregaram das paredes escarnecidas para uma das celas, afinal, eu não estava sozinha. Minha companhia me apavorou: como ela poderia estar ali? Minha rainha presa? Quem ousou prendê-la? A onda de desespero limou toda minha tranquilidade e eu corri para a sela; precisava libertá-la.
As grades estavam abertas. Ela estava sentada sobre uma cama... eu acho. Tinha as mãos caídas por cima das pernas com uma tranquilidade majestosa, e ao mesmo tempo um brilho inocente nos olhos. Ou estava dopada o suficiente para não perceber que estava acorrentada, numa prisão, ou não estava desconfortável nessas condições, o que é estranho. Eu ficaria bastante desconfortável. Mas ela não estava. Parecia uma criança entediada, sonhando com episódio anterior do desenho animado favorito. Enquanto eu lutava contra o tempo, na necessidade angustiante de livrá-la daquelas correntes, ela sacudia a cabeça, olhando para os lados, e cantarolava como se o mundo não tivesse nenhum sentido além daquela música. Nem me ajudar a soltar as correntes estava.
Enfim consegui soltar suas mãos, e isso gerou uma reação totalmente inesperada. De repente ela soltou uma gargalhada digna de bruxa, toda a sua inocência substituída por uma maldade que eu desconhecia e não imaginava que pudesse existir. A risada cessou, e ao mesmo tempo ela me fitou com olhos afiados e poderosos. Veentemente segurou meu rosto entre suas mãos frias e duras como marfim. O olhar era tão maldoso e penetrante que me deixou sem fôlego, eu podia jurar que ela iria me beijar. Onde estava a criança?
Eu sou teu eterno ponto fraco. Tua perpétua heresia sussurrou enquanto lentamente se aproximava, me puxando.
Perdi o fôlego, meus pulmões me abandonaram. Maldito e divino, um prazer oblíquo salpicado de culpa. O proibido. Não haviam testemunhas. Era inevitável.

Uma luz cegante cortou-me por inteiro, cessou a alucinação. Quando recobrei os sentidos estava em uma praia, repentinamente. Agora estava sozinha, rumando para o mar como se lá fosse minha casa, minha morada. Como o precipício para a dama de coração partido, enclausurada pela amargura.
E eu acordei.
Daphini.M.Couto_E_

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Não sinto dor.

              Eu estava a vislumbrando pelo reflexo do espelho, e ela ainda não havia percebido minha presença ali. Ela lavou o rosto, secou com a toalha, fechou os olhos; parecia estar perturbada por alguma coisa; depois se olhou no espelho e finalmente me viu.
               
             Foi difícil chegar até aqui; quando acordei eu não sabia onde estava, via apenas grama a minha volta. Foi o arranhar do trem nos trilhos que me despertou. Eu estava bem no lado, mais alguns metros e teria perdido minha cabeça. A chuva tinha parado... Sim! Eu me lembro da chuva! Me lembro também de ter tocado o rosto dela com meus dedos trêmulos e ensanguentados antes de apagar. Mas não tinha grama antes, só chuva. Quem me trouxera para cá, então?
               Me sentei, toquei meu pescoço e ardeu, me trazendo a memória tudo o que tinha acontecido.
       
              ▬ Pode parecer estranho ▬ ela sussurrou.
              ▬ Eu não me importo ▬ eu nunca me importei com consequências, com dor, com certo ou errado. Nunca me importei com nada quando vindo dela... minha única exceção.
           
            Sutileza sempre foi uma característica minha.
Esconder...
Me contava apenas com olhares sorrateiros. Minhas cartas eram suaves, nada comparadas ao que eu realmente sentia, algo destrutivo que eu jamais a revelaria.
             Mas enfim, o grande mistério é como ela descobriu.
            Eu sempre estava olhando pra ela, sempre. Mas assim que ela percebia, desviava para não levantar suspeitas. Eu a amava de uma forma tão poderosa que era perigoso deixar meus olhos em xeque, poderiam ser muito reveladores. Mas naquele dia eu não consegui desviar, talvez tenha sido isso que a fez perceber.
            Fiquei a encarando por dez segundos; eu não sei como os meus olhos estavam, mas os dela eram clementes, piedosos, do tipo “pobre criança”. E assim se mantiveram até ela vir na minha direção.
                ▬ Precisamos conversar ▬ sentenciou-me num tom sério.
               Em estado de embriaguez, eu apenas meneei a cabeça e a segui até uma sala.
           Foi um questionário rígido que me levou às lágrimas. Eu acabei contando tudo. Depois perguntei como tinha descoberto, mas ela não me disse exatamente, disse apenas que foram peças que juntou, que comparou cartas, monólogos, poemas, passou a me observar e até que desconfiou. É claro que eu não acreditei, deveria ter sido traição de alguém! Algum indivíduo deve ter aberto a boca.
           Se formou um silêncio gelado sobre nós; eu sentia os olhos dela me cuidando, mas jamais conseguiria levantar minha cabeça para confirmar isso. Lágrimas brotavam do meu rosto com muita facilidade, e isso me foi vantajoso.
            Movida de compaixão ela se sentou ao meu lado e tocou meu queixo.
           Eu chorei mais ainda, fiquei me xingando, me detestando e ela tentando me confortar até cessar minha criatividade e eu me entregar ao seu afago.

           Enfim, reciprocidade doentia.
           Era um almoço na casa dela, uma justificativa para se “reconciliar” comigo, uma forma de gratidão, de correspondência à misericórdia. Um ato altruísta da sua parte, mas eu garanto que nem ela imaginava o que iria acontecer.
           Segundo ela sou um “anjo desbotado”, uma "alminha dolorida que precisa de amparo”. Segundo seus dedos, meus cabelos são macios; o clima estava ameno, translúcido, belo... Até a pergunta.
            ▬ Por quê? O que tenho que te atrai? ▬ seu tom foi intenso, como vinho para o abnegado, como açúcar para o diabético, como... Como nos meus sonhos.
            Ela me arrancou as verdades sem precisar falar mais nada. Era o seu aroma, o tom da sua voz, seus dedos nos meus cabelos, era a sua presença aquela força me intimidava à sinceridade destrutiva.
            Escândalo...
            Eu devo ter comovido seu coração com tudo que falei. Falei de seu cheiro, da voz, da personalidade, dos olhos, falei estrofes não rimadas de tudo que tinha em mente.
            O escândalo veio no próximo momento de silêncio, quando eu não resisti e, sobre aquele sofá pardo, apenas as estantes como testemunha, toquei seu rosto como o arqueólogo que encontra um epitáfio faraônico.
            ▬ Eu te amo... ▬ sussurrei como se estivesse assumindo um crime. Era tudo tão... errado...
            ▬ Eu não vou te machucar... ▬ ela sussurrou mais baixo ainda pondo suas mãos na minha nuca.
Eu estava de olhos fechados quando senti seu hálito mais próximo e depois o toque quente dos lábios nos meus. Estremeci... era surreal demais, bom demais, proibido demais para ser verdade. Mas sim, estava acontecendo, ali, naquele instante! Do leve toque de lábios surgiu então a verdadeira mistura de emoções, e enfim, um longo e promissor beijo de verdade, despido de toda qualquer inocência.
Uma reciprocidade doentia.

            Desde então passei a obedecê-la e venerá-la ainda mais. Compartilhávamos de um segredo infame, ninguém sequer desconfiava. Ambos éramos loucos; eu, por adorá-la tanto a ponto de entregar a vida em troca apenas de seu sorriso. E ela, a ponto de me pedir tais coisas...
            ▬ Pode parecer estranho ▬ ela sussurrou no dia em que tudo aconteceu.
            ▬ Não me importo ▬ não importava mesmo o que ela iria pedir, eu faria.
            ▬ Dor... pode causar dor ▬ gaguejou.
            ▬ Não há dor vindo de seus braços.
            Isso a encorajou, foi o sinal verde para sua psicopatia.
            Então era esse seu desejo... seu grande sonho. Sua obsessão comprimida durante anos, e que agora era confiada a mim. Uma honra!... Estranha, de fato, mas uma honra! Ser a cobaia de seu sonho psicótico, a partir de agora meu também.
Ela tinha uma faca nas mãos, uma faca fina e quase meiga, um punhal prateado. Ela traçou a lâmina sobre meu pescoço até meu queixo, foi incrível a sensação frenética que aquilo me causou. Não doeu, como eu disse, nunca sentiria dor vindo dela. Meus pulsos, meu pescoço, queixo, entre mordidas e a lâmina. Ouvia a chuva; aquilo não era apenas suor, era meu sangue, tanto em mim quanto nos seus lábios. E seus olhos... flamejantes, deliciosamente sombrios e realizados.
           
           Não encarei como traição, ou assassinato. 
        No fim de tudo, olhando para seus olhinhos assustados e culpados, eu toquei seu rosto com meus dedos trêmulos e ensanguentados, e o apagão pousou em mim com uma nuvem negra e pesada puxando-me para um abismo pela nuca.
            Só me acordei em meio às gramas, um tênue som de águas correntes e o trem barulhento.

        Era difícil caminhar, como a dor não vinha mais dela, agora eu a sentia, e bastante. Eu cambaleava até chegar a um pedaço da cidade. Reconheci o lugar e sabia onde encontrá-la.
          Foram duas semanas vagando como um zumbi. A roupa ensanguentada, rasgada, minha sutileza, eu a espionava. Não pude perder a oportunidade quando a vi entrar no banheiro da biblioteca. Me escondi em um dos boxes; ela estava belíssima, delicada e preocupada. Notei que precisou lavar o rosto porque havia lágrimas nos seus olhos. Sai do Box e segui na sua direção.
            Ela lavou o rosto, secou-se com a toalha e enfim me viu através do reflexo. Deixou sua bolsa cair e colocou as mãos na boca, comprimindo um grito desesperado. Enfim correu para a porta, mas estava trancada... eu cuidei de todos os detalhes.
            ▬ Isso é impossível! ▬ ela arquejou encostada na porta, em pânico.
            Eu não estava com raiva, não ia me vingar e em milênios, nunca conseguiria machucá-la.
            Eu sorria; senti uma vibração doentia, uma alegria sombria e me aproximei dela, cercando-a contra a porta. Meus dedos, ainda sujos de sangue, tocaram seu queixo. Ela tremia, permanecendo em estado de pânico, o que me alegrava mais.Agora era a minha psicopatia, o meu sonho...
            ▬ Não vou te machucar ▬ sussurrei soando ironia.
            ▬ Pode se vingar ▬ ela falou entre lágrimas suprimidas. ▬ Sei que errei.
            Eu balancei a cabeça.
            Tcs... tcs... tcs
            ▬ Até parece que não me conhece. Não vou me vingar... ▬ afaguei sua nuca. ▬ Mas nunca mais vou deixá-la partir de novo ▬ agora soei cruel.
            E ela gritou até eu tampar seus lábios com os meus.
           

            Agora é noite; meus pés estão dentro do lago; sua cabeça repousa sobre meu colo. Ela dorme um sono interrupto e leve. Nunca mais vai ir embora, agora sim posso respirar e terminar tudo. Elevo meus dedos até os lábios, provando o doce sabor de seu sangue, igualmente como ela fizera naquele dia. Depois me levanto, encosto sua cabeça lentamente sobre o travesseiro enjambrado com folhas e me deito tranquilamente e confortavelmente sobre os trilhos.
            ▬ Eu te amo, dos teus braços nunca senti dor ▬ sussurro e lhe atiro a rosa vermelha que comprei especialmente para essa ocasião.
            Observo a fragilidade da flor ao tocar sua pele pálida e reflito sobre o quanto a vida é frágil e incerta enquanto ouço o trem se aproximando...
           






















Daphini.M.Couto_E_